quinta-feira, dezembro 06, 2007

Meio quase meio

Eu meio que me vou sem ir. Eu meio que estou por aqui e por lá ou por aí. Meio perto ou meio quase distante, entre abrigos e desilusões eu meio que me acho e me perco no meio. Emergir do nada, ressurgir da vaga intenção de ser. Exaltar as falas, os discursos meio exóticos, meio exaustos, os gritos serenos e os ensurdecedores de um modesto garimpeiro. Garimpo os escuros, demarco as possíveis saídas do breu na busca da ilustração, latente impulsão de encontrar nos livros, nos filmes ou no nada a imensidão aglutinante dos fartos e insaciáveis desejos subvertores, subvertentes, subversivos e pingentes. Rastros de notícia, de vida encenada, de altivo drama litúrgico, profano entalhe. Agente de mim e agente do mundo, histórica e criativa, crio, invento, atuo, meio enfática, meio turbulenta, meio sem razão ou sentido ou êxito. Me vale a sorte, a experiência inesperada de andar, tropeçar e uma idéia nascer disso; vem meio sem graça, meio escondido o brilhante ato, que não sei bem, só sei que vem. Fluirá um novo gesto, me diz a incerteza, me confirma a dúvida. Será meio sem ser, quem notar se elevará, vai por aí, sem rumo, feliz de levar consigo e deixar para todos a transformação, a vaga e possível mudança na história de tudo, ou quase, nas mentes sociais, nas responsabilidades universais, ou quem sabe não. Tudo pode ser em vão. De todas as incertezas, fico com as flores e suas sutilezas. Degradar-me, desmanchar-me, diluir-me, e reconstruir-me num relevo me seria triunfal, mas vejo as cores das flores e o acinzentado das dores. Isso também me recria e faz de mim um novo eu a cada dia.


Patrícia Borde

2 Comments:

Blogger criaturita exotica said...

todas as ambiguidades do seu ser parecem se expressar no seu texto...meio que tdos carregam em si tamanha confusao interna que se torna fácil me identificar em várias partes do que vc escreveu...
bom eh isso...
gsotei do texto
beijos

12:09 AM  
Blogger floratomo said...

ir sendo, independente de qualquer meio ou fim... é melhor ir pretendendo do que se precipitar pelos infinitivos, eles nos tornam imutáveis.

bom saber que vc escreve, e muito bem, por sinal!!
beijos, daya

12:01 PM  

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